O risco de esquizofrenia pode estar parcialmente enraizado no acesso a áreas verdes?

field-g114eb5ad1_1920

Os habitantes das cidades com grande exposição a áreas verdes têm um risco significativamente menor de esquizofrenia do que as pessoas que vivem em áreas com pouco espaço verde, mostra um novo estudo.

CONTINUE LENDO A MATÉRIA

Os pesquisadores, liderados pela médica Dra. Martine Rotenberg, do Centre for Addiction and Mental Health e da University of Toronto, no Canadá, constataram que as pessoas que vivem em áreas com níveis mais baixos de espaço verde têm 24% mais probabilidade de ter esquizofrenia.

Este estudo contribui para um crescente conjunto de evidências que mostram a importância da exposição às áreas verdes para a saúde mental.

“Esses achados contribuem para uma um banco de evidências cada vez maior de que os fatores ambientais podem desempenhar um papel na etiologia da esquizofrenia”, escreveram os pesquisadores.

O estudo foi publicado on-line em 04 de fevereiro no periódico Canadian Journal of Psychiatry.

Mecanismo desconhecido

Para o estudo, os pesquisadores utilizaram uma coorte retrospectiva de 649.020 pessoas entre 14 anos e 40 anos de idade provenientes de diferentes bairros de Toronto, no Canadá.

A área verde foi calculada utilizando-se dados geoespaciais de todos os parques públicos e espaços verdes da cidade, dados estes extraídos do Urban Health Equity Assessment and Response Tool.

Durante um período de 10 anos, 4.841 participantes foram diagnosticados com esquizofrenia.

As que moravam em bairros com menor quantidade de espaço verde tiveram uma probabilidade significativamente maior de ter esquizofrenia do que as que moravam em locais com mais áreas verdes, mesmo após ajuste por idade, sexo e marginalização na vizinhança (razão de incidência ajustada de 1,24; intervalo de confiança, IC, de 95% de 1,06 a 1,45).

No geral, o risco de esquizofrenia também foi mais alto entre os homens do que entre as mulheres (razão de incidência ajustada de 1,59; IC 95% de 1,50 a 1,68). As pessoas que viviam em regiões com quantidade moderada de áreas verdes não tiveram aumento do risco de esquizofrenia.

“Descobrimos que morar em uma região com menor quantidade de espaço verde foi associado a aumento do risco de ter esquizofrenia, independentemente de outros fatores sociodemográficos e socioambientais”, observaram os pesquisadores. “O mecanismo subjacente em jogo é desconhecido e requer estudos mais aprofundados.”

Uma possibilidade, acrescentaram, é que a exposição ao espaço verde possa reduzir o risco de poluição do ar, que outros estudos sugeriram poder estar associada ao aumento do risco de esquizofrenia.

O novo estudo baseia-se em um trabalho feito em 2018 na Dinamarca, que demonstrou um aumento de 52% do risco de perturbações psicóticas na idade adulta entre as pessoas que passaram a infância em bairros com poucas áreas verdes.

Importantes dados longitudinais

Convidado pelo Medscape a comentar as descobertas, o médico Dr. John Torous, diretor de psiquiatria digital do Beth Israel Deaconess Medical Center, nos EUA, disse que o estudo apresenta dados longitudinais importantes.

“A duração de 10 anos do estudo e o grande tamanho da amostra tornaram os resultados muito convincentes e ajudam a confirmar o que tem sido pensado sobre o espaço verde e o risco de esquizofrenia”, disse o Dr. John .

“Muitas vezes, pensamos no espaço verde a um nível muito macro”, acrescentou o comentarista. “Este estudo é importante porque nos mostra que o espaço verde importa também a cada quarteirão.”

O estudo não foi financiado. Os autores e o comentarista informaram não ter conflitos de interesse.

Can J Psychiatry. 2022;67:238-240. Abstract

Siga o Medscape em português no Facebook, no Twitter e no YouTube

Fonte: Kelli Whitlock Burton para MedscapeFotografia: Joe para Pixabay

Comments are closed.